
Biologistas alcançam avanço notável na criação de células sintéticas
Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram montar componentes não vivos dentro de uma membrana semelhante à celular, observando a evolução de uma bolsa de moléculas que começou a se comportar como uma forma de vida. A célula sintética criada em laboratório demonstrou crescimento, replicação de DNA e divisão, apresentando funções básicas do ciclo celular.
"É um passo impressionante", afirma Jack Szostak, especialista em origens da vida na Universidade de Chicago, que não participou da pesquisa. Ele observa que "não conheço outro esforço que tenha avançado tanto na construção de uma célula artificial a partir de componentes biológicos".
Embora a célula não seja considerada viva, pois depende de fornecimento constante de alimentos e ribossomos, suas características representam a mais forte evidência de que é possível gerar vida a partir de não vida, um objetivo que tem sido perseguido por biólogos sintéticos por décadas. "É um grande avanço em direção a esse santo graal de criar um ser vivo a partir de componentes inanimados", afirmou Sijbren Otto, químico de sistemas no Instituto Stratingh de Química, na Holanda, que também não esteve envolvido no trabalho.
Kate Adamala, bióloga sintética da Universidade de Minnesota e líder do estudo, que ainda não foi revisado por pares, compartilhou: "Eu tenho um plano, uma lista completa de ingredientes químicos de cada componente". Essa flexibilidade permite que células sintéticas sejam manipuladas para criar novos materiais, como biocombustíveis e medicamentos, além de auxiliar na pesquisa de doenças.
O projeto de Adamala se baseia nos princípios comuns a todas as células conhecidas: crescimento, duplicação de DNA, divisão e evolução. Para isso, a equipe precisou construir um genoma sintético e fornecer todos os materiais necessários para realizar essas funções.
Os cientistas desenvolveram diferentes ingredientes, inspirados em outros laboratórios, e os combinaram dentro de lipossomos — sacos ocos envoltos por uma membrana lipídica simples, que serviriam como corpo celular. Eles começaram com o sistema fundamental de uma célula: o mecanismo de cópia do DNA e sua transmissão para células filhas.
"O que mais a biologia pode fazer?", questionou Adamala, refletindo sobre as implicações filosóficas de seu trabalho. As descobertas podem fornecer insights sobre questões existenciais, como o que é necessário para sustentar a vida e como ela poderia ter surgido no passado.
A equipe enfrentou desafios significativos para fazer com que todos os sistemas genéticos funcionassem em conjunto. Após ajustes e otimizações, a célula começou a crescer e a replicar seu DNA. "Eu estava quase pronta para dizer 'Pronto' e 'Vamos publicar isso'", lembrou Adamala, mas sua visão para a célula sintética ainda exigia um passo final: a divisão.
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