É 9:59 da manhã em Melbourne, 9 de outubro de 2024. A luz do sol entra pelas janelas, iluminando partículas de poeira que dançam pela sala. Com uma xícara de chá nas mãos, dou um gole e aprecio o sabor.
Envio uma mensagem ao outro engenheiro sênior da equipe, que é full-time: "Estou pronto para começar às 10", como é nosso costume.
Às 10:00 da manhã, em Melbourne, 9 de outubro de 2024, a luz do sol é imediatamente substituída por um crânio gritando que paira em um céu gélido. Olho para meu chá, que agora parece sangue. Dou um gole e aprecio o sabor. "Você está pronto para entrar na Zona da Dor?", envio a mensagem ao meu colega.
A Zona da Dor, uma plataforma de data warehouse empresarial, é um lugar onde copiamos arquivos de texto de diferentes sistemas para um único local todas as manhãs. A complexidade do nosso sistema faz com que as pessoas questionem: "Por que alguém projetaria algo assim?" e "Isso nem ajuda na segurança!".
Nesse contexto, já trabalhei em empresas onde a alta performance dos engenheiros exigiu algo que chamo de navegação na Zona da Dor. É a prática de trabalhar apenas em programação em par, para ter alguém ao seu lado, ajudando a encarar os horrores da Zona sem perder a sanidade. O código em si não é a fonte do medo, mas sim uma cultura que desvaloriza o trabalho de qualidade. As pessoas se sentem mal por não conseguirem trabalhar rápido o suficiente em um código terrível.
Muitas culturas de trabalho degeneram para ambientes onde o bullying é prevalente. Em algumas empresas, a falta de respeito pela verdadeira maestria é alarmante. É necessário valorizar o trabalho árduo e as habilidades que um profissional possui, e isso não é algo que todos entendem.
Neste lugar, o ambiente é melhor do que a média, pois o bullying não é tolerado e o trabalho remoto é comum. Porém, na engenharia de software, a situação é preocupante. Temos um acordo na equipe: todas as manhãs, tomamos nosso café e, às 10 da manhã, navegamos juntos pela Zona da Dor por três a quatro horas. A gerência não percebe que essa camaradagem é o que mantém tudo funcionando.
Hoje, temos uma tarefa simples: verificar se os dados estão chegando ao nosso sistema e se não há perda de dados. Através dos logs, que já foram coletados, decidimos examinar uma fonte de dados. Mas, logo no início, nos perdemos na Zona da Dor.
Ao tentarmos analisar os logs do Google Analytics, encontramos um emaranhado de informações sem sentido. Em vez de dados claros, vemos uma mistura de JSON incompleto e irreconhecível. Como isso pode acontecer? Descobrimos que estamos escrevendo dados totalmente aleatórios nos logs há mais de um ano, e ninguém notou.
Após algumas tentativas frustradas de entender a situação, a equipe decide que é mais importante continuar a tarefa do que corrigir o erro crítico nos logs, pois a velocidade é prioridade. "Pare de fazer perguntas, você só vai se machucar", é uma frase comum que ecoa entre nós.
Conforme o dia avança, percebo que estou em um lugar que não respeita meus valores e que não posso mudar a situação. A cultura da empresa não valoriza o que realmente importa, como códigos testados e logs compreensíveis. No fundo, sei que estou apenas desperdiçando meu tempo ali.
Finalmente, após uma conversa com meu colega, decido que não posso mais continuar. "Estou fora hoje", digo a ele, e ele aceita meu raciocínio. Às 14:00, entrego minha demissão.
Às 15:00, já finalizei todos os trâmites necessários e meu último dia será em 5 de novembro de 2024. Agora sou o diretor da minha própria consultoria e, em janeiro, começarei a viver de forma diferente. Olho para minha xícara de chá e, pela primeira vez, ela é apenas chá. Dou um gole e aprecio o sabor.
PS: Recentemente, dei uma palestra no GDG Melbourne e uma webinar para membros do conselho dos EUA, onde percebi que nossos líderes não estão preparados para lidar com a quantidade de desinformação sobre tecnologia que recebem. A busca por sinceridade na comunicação é algo que o mercado precisa, mesmo que não esteja disfarçado de maturidade corporativa.
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