
O Parque Nacional Tassili N'Ajjer, localizado na Argélia, é reconhecido como o maior parque nacional da África e abriga o que pode ser considerado o maior museu de arte a céu aberto do mundo. Com mais de 15 mil gravuras e pinturas rupestres, algumas datando de até 11 mil anos, o local oferece um registro etnológico e climatológico singular da região.
Curiosamente, as representações artísticas encontradas no platô não mostram a paisagem árida atual, mas sim uma savana exuberante, repleta de fauna diversificada, incluindo elefantes, girafas, rinocerontes e hipopótamos. Este acervo é um testemunho do período conhecido como 'Sahara Verde', que ocorreu entre 6.000 e 11.000 anos atrás, quando a região sustentava ecossistemas de savanas arborizadas e inúmeros rios e lagos.
Estudos climatológicos apontam que o Sahara passou por mais de 230 episódios de 'verdeamento', cada um com duração de cerca de 21 mil anos ao longo dos últimos oito milhões de anos, influenciando a distribuição e evolução das espécies, inclusive nos padrões migratórios dos humanos ancestrais para fora da África.
O fenômeno do 'Sahara Verde' exigia uma reorganização em grande escala do sistema atmosférico para que chuvas fossem trazidas à região. Pesquisadores de modelagem climática e antropologia desenvolveram modelos climáticos que simulam com maior precisão a circulação atmosférica sobre o Sahara e o impacto da vegetação nas chuvas.
A pesquisa identificou que as mudanças na precessão orbital da Terra - um ligeiro balanço do planeta enquanto gira - eram a causa principal desses períodos úmidos, ao aproximar o hemisfério norte do sol durante os meses de verão. Isso resultava em verões mais quentes, capazes de reter mais umidade e intensificar o sistema de monções da África Ocidental, expandindo as chuvas saarianas e com isso, a savana e as pastagens arborizadas se espalhavam pelo deserto, desde os trópicos até o Mediterrâneo.
Os resultados da pesquisa enfatizam a sensibilidade do deserto do Sahara às mudanças climáticas passadas, e como essa sensibilidade afeta as chuvas no norte da África. Tal compreensão é crucial para analisar as implicações das mudanças climáticas atuais, impulsionadas pelas atividades humanas, que podem intensificar a força das monções e impactar tanto local quanto globalmente.
Os ciclos de Milankovitch, especialmente a precessão, influenciam o clima terrestre e são responsáveis pelos períodos úmidos recorrentes na África. A pesquisa também mostrou que as eras glaciais, provocadas pela variação na excentricidade da órbita da Terra, suprimiam a expansão do sistema de monções africano devido ao resfriamento causado pelas grandes camadas de gelo.
A habilidade de modelar os períodos úmidos africanos fornece uma ferramenta para entender a alternância entre fases úmidas e áridas e suas consequências para a dispersão e evolução de espécies, incluindo os humanos. Isso também ajuda a prever possíveis futuros 'verdeamentos' em resposta às mudanças climáticas e seu impacto ambiental. Modelos refinados poderão, no futuro, identificar como o aquecimento climático influenciará a precipitação e a vegetação na região do Sahara e suas implicações mais amplas para a sociedade.
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