
HONG KONG — A polêmica tomou conta da premiação dos Hugo Awards, reconhecidos prêmios literários do universo da ficção científica, após a divulgação de e-mails vazados que indicam a exclusão de vários autores das listas de finalistas do ano passado. As exclusões teriam ocorrido por temores de que suas obras ou declarações públicas pudessem ser ofensivas à China.
Entre os escritores afetados estavam nomes de peso como Neil Gaiman, R.F. Kuang, Xiran Jay Zhao e Paul Weimer, que, apesar de terem recebido votos suficientes, foram considerados inelegíveis, gerando questionamentos sobre os critérios de seleção.
Dave McCarty, então chefe do júri dos prêmios de 2023, expressou em um e-mail datado de 5 de junho a necessidade de atenção especial a qualquer conteúdo de 'natureza política sensível', em razão da realização do evento na China. Isso incluiria trabalhos relacionados a temas delicados como China, Taiwan e Tibete. McCarty, que renunciou ao cargo no mês passado, não retornou os pedidos de comentários.
Em resposta ao escândalo, os organizadores dos Hugo Awards de 2024, que ocorrerão em Glasgow, afirmaram estar adotando medidas para 'garantir transparência e tentar remediar a grave perda de confiança na administração dos prêmios'.
A cerimônia do ano passado, diferentemente da maioria dos prêmios literários que são organizados por associações ou críticos, foi realizada pelos fãs durante a 81ª World Science Fiction Convention (Worldcon), em Chengdu, na China. A escolha do local gerou protestos de escritores de ficção científica e fantasia, que, em uma carta aberta, expressaram preocupação com as alegações de abusos contra uigures e outras minorias muçulmanas, as quais Pequim nega.
Os e-mails vazados, primeiramente reportados pelos escritores de ficção científica Chris M. Barkley e Jason Sanford, demonstram uma pesquisa meticulosa dos organizadores sobre 'negativos da China' nas obras publicadas, resenhas de livros e históricos em redes sociais dos autores.
Obras como 'Babel' de Kuang, premiado com o British Book Award de Ficção de 2023, foram excluídas aparentemente apenas por se passarem na China. O romance 'Iron Widow' de Zhao foi marcado por ser uma 'reimaginação da ascensão da Imperatriz chinesa Wu Zetian'.
Comentários feitos por autores, incluindo Barkley e Sanford, acerca dos méritos de realizar os prêmios em Chengdu e se haviam assinado ou compartilhado a carta aberta também foram sinalizados.
Paul Weimer, escritor americano e indicado ao Hugo por três vezes, desclassificado, compartilhou sua frustração perante os fatos inverídicos sobre sua viagem ao Tibete, quando na verdade esteve no Nepal. Ele criticou a análise minuciosa como contrária ao espírito dos Hugo Awards e da própria ficção científica.
Diane Lacey, organizadora dos prêmios que divulgou os e-mails e autora de alguns deles, expressou, em uma carta de desculpas, arrependimento por não ter renunciado ao seu papel na ocasião e por ter cedido à pressão de vetar nomeações relacionadas a questões sensíveis à China.
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