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A ascensão e queda do Sega Saturn

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4 July 2023

Em meados dos anos 90, enquanto o mundo ainda acompanhava a guerra entre a Nintendo e a Sega, havia outra empresa pronta para abalar o mercado: a Sony. Quase três décadas se passaram desde aquela disputa iminente e todos nós conhecemos o desfecho. No entanto, naquela época, a fabricante do Saturn estava cheia de otimismo.

Lançado no Japão em 22 de novembro de 1994 e nos Estados Unidos em 11 de maio do ano seguinte, o Sega Saturn foi o console de videogame de quinta geração criado pelos mesmos desenvolvedores do Sonic. Ele chegou ao mercado cercado de expectativas, principalmente por causa dos jogos em CD, que representavam um grande avanço em relação ao seu antecessor. No entanto, a Sony era uma adversária poderosa.

Para motivar sua equipe, o então presidente da Sega of America, Tom Kalinske, enviou um e-mail falando sobre o desempenho do Saturn em relação ao PlayStation. Na mensagem, intitulada "O sucesso do Saturn no Japão", ele escreveu o seguinte:

"É uma coisa ouvir/ler sobre o quão bem estamos indo contra a Sony no Japão e outra completamente diferente é testemunhar isso pessoalmente. Visitei 10 lojas de varejo em Tóquio (a maioria em Akihabara): é a época das férias de primavera e há uma multidão enorme de adolescentes e universitários. Estamos superando a Sony. Em cada loja, o Saturn está esgotado e há pilhas de PlayStation. Os varejistas comentaram que não conseguem comparar as vendas com precisão porque o estoque do Saturn se esgota antes que eles possam mensurar. Nossos monitores interativos são melhores, nossos jogos e estoque são superiores. Não é incomum ver 40-50 cópias do Panzer Zwei ou do Virtua Fighter 2 estocadas até mesmo em pequenas lojas, e elas estão vendendo rapidamente. Gostaria de poder levar todos os nossos funcionários, vendedores, varejistas, mídia, etc., para que eles pudessem ver e entender o que está acontecendo no Japão; assim, eles entenderiam por que vamos vencer nos Estados Unidos eventualmente. Como podemos mostrar isso na E3?"

Esse e-mail foi enviado em 18 de março de 1996, pouco antes da E3 daquele ano. No entanto, a visão positiva de Kalinske não durou muito tempo. Com a revelação de que a Sony lançaria o PlayStation nos Estados Unidos, a Sega correu para garantir que o Saturn estivesse disponível nas lojas antes do concorrente, a fim de construir a maior base de usuários possível.

O problema foi que essa pressa resultou em um lançamento com uma biblioteca de jogos modesta. Além disso, cada console era vendido por US$ 399, o que não empolgou as pessoas. Para piorar, durante a E3, a concorrente anunciou que o PlayStation custaria apenas US$ 299, um golpe do qual o Saturn nunca se recuperaria.

Os varejistas também não tinham muitos motivos para continuar vendendo o sucessor do Mega Drive. Embora cada unidade custasse apenas US$ 232 para ser produzida, as lojas tinham uma margem de lucro de apenas 6%, o que significava que cada venda rendia apenas US$ 15. Isso levou a Sega a temer que o mercado simplesmente deixasse de oferecer o console.

Tom Kalinske, no entanto, não pode ser acusado de ter sido ingênuo ao escrever aquele e-mail. Apenas três meses depois de "prever" a vitória da Sega nos Estados Unidos, ele deixou a empresa. Talvez a falta de confiança no sucesso do Saturn tenha influenciado em sua decisão, mas certamente o modo como ele passou a ser tratado pelos japoneses também teve peso.

"A situação mudou drasticamente [após o fim da geração 16-bit]", afirmou Kalinske. "Eu passei de alguém que podia fazer o que quisesse para alguém que passou a ser comandado. Na época, eu realmente não entendia o que estava acontecendo. Éramos bem-sucedidos, então não entendi por que todas as decisões passaram a ser impostas pelo Japão."

Segundo Kalinske, tudo o que a Sega of America falou sobre o Saturn foi ideia dos japoneses. Ele garante que eles sabiam que não teriam unidades suficientes do console para atender à demanda e que, contra a vontade dos americanos, o videogame foi anunciado cinco meses antes do previsto.

Muitas dessas informações vieram à tona recentemente, graças ao vazamento de um documento de 272 páginas (PDF) que apareceu no site Sega Retro. Esse vazamento tem sido uma fonte valiosa para quem gosta de conhecer os bastidores das fabricantes de videogames, já que é muito raro ter acesso a esse tipo de material, mesmo após quase três décadas.

Nesse documento, encontramos uma quantidade enorme de informações sobre aquele período da empresa, desde o número de cópias vendidas de determinados jogos até a reprodução de propagandas veiculadas em revistas, além das estratégias para aumentar as vendas de futuros títulos.

Um trecho do memorando reconhece que os produtos da Sony pareciam melhores do que os da Sega. O documento também fala sobre a divulgação do console rival ser melhor e como o Sega CD e o 32X prejudicaram a percepção do público em relação à Sega. Outros fatores que contribuíram para o sucesso do PlayStation foram o fato de ter sido lançado depois, dando a impressão de ser tecnicamente superior, e a boa imagem que a Sony já tinha com seus eletrônicos.

O Sega Saturn também falhou em relação aos jogos de esportes, o que tornou quase impossível reverter a situação. A divisão americana da empresa sugeriu algumas estratégias, como trazer jogos populares dos fliperamas para o console, focar em um público acima de 12 anos, lançar jogos com suporte a partidas online ou utilizar gráficos em polígonos em vez de sprites. Curiosamente, ignoraram um dos pontos fortes do Saturn.

Infelizmente, a reviravolta nunca aconteceu e o Sega Saturn acabou rendendo muito menos do que poderia. Hoje, ele é cultuado pelos fãs de jogos retrô. Apesar de todos os problemas, fiquei muito feliz por ter conseguido adquirir um em boas condições recentemente.

Claro, o Saturn era inferior ao PlayStation, especialmente em termos de oferta de jogos. No entanto, seja por nostalgia ou por não depender apenas dele para jogar, tenho um carinho especial por esse console, que um dia Tom Kalinske achou que seria capaz de derrotar os gigantes.

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